O bem dos pobres é para o socialismo apenas um pretexto

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Objeção: “Será que nunca olharam ao redor do condomínio ou apartamento em que foram criados?Como podem, demonstrar tanta falta de visão para com o sofrimento de milhões de pessoas condenadas à miséria pelo sistema econômico e a tão cultuada livre propriedade que vocês defendem. (…) Sou Católico Apostólico Romano e gostaria realmente de saber quais são suas opiniões sobre: – Pobreza – Humildade – Partilha de bens”

Recebido em 17/12/98Não encontrei outra palavra no momento para definir meu sentimento, após ler algumas matérias de seu jornal. Não sei que formação os senhores (Talvez seja assim que gostem de ser tratados, a julgar pelo visual que seus jovem membros cultuam e as idéias que defendem) tiveram para defender tais ideais. Será que nunca olharam ao redor do condomínio ou apartamento em que foram criados? Como podem, demonstrar tanta falta de visão para com o sofrimento de milhões de pessoas condenadas à miséria pelo sistema econômico e a tão cultuada livre propriedade que vocês defendem. Como podem se dizer cristãos? Se dizer em sintonia com Cristo, Maria, que viveram na mais profunda pobreza e perseguidos pelo poderosos da épocas, que podem ser comparados aos poderosos que vocês defendem hoje em dia?

Confesso que senti, durante alguns segundos, uma grande alegria ao ver no mural de minha universidade, um jornal que a principio parecia defender o evangelho sob as orientações da igreja católica. Mas tal não foi meu espanto ao me defrontar com apologias ao capitalismo,às desigualdades sociais, e, nas entrelinhas, à ditadura!!

Sou Católico Apostólico Romano e gostaria realmente de saber quais são suas opiniões sobre:

– Pobreza
– Humildade
– Partilha de bens (Por favor leiam os primeiros capítulos de Atos dos Apóstolos sobre como viviam as primeiras comunidades cristãs)
Há muito ainda o que dizer, não gosto deste monólogo. Se realmente lhes interessa a discussão, enviem-me um e-mail.

N.D. – UnB – Brasília

* Resposta

Respondido em 18/12/98

Caro N.,

Quero, antes de mais nada, agradecer pelo seu e-mail. Não tanto pelas palavras “mansas” que proferiu, mas por buscar manter um diálogo que, espero, seja proveitoso.

A Frente Universitária Lepanto foi constituída exatamente para essas discussões, para levar aos demais universitários algumas informações que eles não têm acesso.

Normalmente, o universitário tende a acreditar no que conta a imprensa ou os seus professores. O que nós buscamos é mostrar a outra face da realidade.

Quando você afirma – gratuitamente – que nós nunca “olhamos para além do condomínio ou apartamento”, além de chamar atenção para sua agressividade e pelo fato de que você não nos conhece, quero dizer que, no meu caso pessoal como no de muitos outros, nós já visitamos todas as periferias de Brasília. Alguns dos redatores, inclusive, são moradores de “cidades-satélites”.

Como eu também não o conheço, não posso afirmar se você já visitou ou morou em algumas das periferias de Brasília, mas sei que seu conhecimento sobre esses lugares é muito superficial.

Não posso concordar com suas afirmações sobre a miséria. Pelo seu e-mail, ficou parecendo que a miséria é fruto da livre propriedade. Ora, a realidade dos fatos é oposta. A miséria é tanto maior quanto mais se perseguiu a livre-propriedade. Basta ver a miséria da Rússia, de Cuba e de todos os demais países onde a propriedade privada foi banida.

Apesar de ter dito que leu o nosso boletim, fiquei com a impressão de que sua leitura foi muito rápida. Pois, como é possível ter encontrado a defesa da ditadura quando o artigo de capa é claramente contrário à maior ditadura da América? Como pode ter encontrado apologias ao capitalismo quando o boletim é, nitidamente, anti-modernista. É claro, como ensina a Igreja, o capitalismo é mau apenas nos seus excessos, enquanto o socialismo é intrinsecamente ruim.

Sobre as desigualdades sociais, a posição da Igreja também é clara. Deus criou os homens de forma desigual: uns têm mais capacidade e maior inteligência, outros têm mais força, outros tem mais astúcia, outros têm mais saúde, etc. Desses desigualdades naturais, derivam as desigualdades sociais. É claro, essas desigualdades devem ser proporcionais e harmônicas. Entretanto, “o abuso não tolhe o uso”. Mesmo que existam exageros, não se fica contra a ordem natural da criação.

Sobre a pobreza, ela é inteiramente lícita. Nada há de mal no estado de pobreza, desde que não seja conseqüência da preguiça. O maior amigo de Nosso Senhor era um homem rico, de nome Lázaro, que foi ressuscitado. Em nenhum momento Nosso Senhor combateu os ricos, mas o apego ao dinheiro, como no caso do moço rico do evangelho. Aliás, a pessoa pode ter pouco dinheiro e muito apego…
Santa Maria Madalena, a pecadora arrependida, pôde se dar o luxo de quebrar um frasco de perfume caríssimo aos pés de Nosso Senhor. Um dos discípulos, de nome Judas, o traidor, indignou-se! Queria vender e dar aos pobres, pois o desperdício era contrário à pobreza. Nosso Senhor, severamente, o repreendeu!

A Humildade consiste, exatamente, em reconhecer a desigualdade da criação. O orgulhoso sente inveja do superior. O humilde sente admiração! Em toda a sua vida, Nosso Senhor ensinou-nos a amar a desigualdade e a hierarquia. Aliás, já imaginou o que é um Deus se fazer menino e ser submisso a uma mulher e a um homem? Nossa Senhora, como Rainha do Céu e da Terra, era obediente a S. José! A defesa da humildade é a defesa da desigualdade. Não há humildade possível onde todos são iguais, pois ela pressupõe a admiração de qualidades maiores do que a minha.

Sobre a partilha de bens, quero lembrar que até hoje é recomendada pela Igreja para pessoas religiosas e não imposta contra a sociedade. Mesmo no começo da Igreja, não havia qualquer obrigação de se partilhar, mas sim o convite a isso.

Esperando ter respondido às suas colocações de forma mais “mansa” do que foram postas para nós, despeço-me.

Atenciosamente,
Frederico Viotti
Frente Universitária Lepanto

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