A Teologia da Libertação no poder?

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Com a vitória de Lula, a chamada esquerda católica alcança importantes cargos no Governo Federal e projeta sua nefasta influência para além das sacristias.

Frederico R. de Abranches Viotti*

Frei Betto (esq), um dos próceres da Teologia da Libertação e consultor especial do Presidente Lula, com o Ministro Extraordinário de Segurança Alimentar, José Graziano

Disse o Bem-aventurado Papa Pio IX, em 1873:“Um grande número [dentre os católicos] parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade. […] São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados”.1

Como ninguém ignora, a Igreja atravessa em nossos dias a maior crise de sua venerável existência vinte vezes secular. (vide quadro à p. 17).

Impulsionando essa crise está uma corrente de teologia, dita da libertação, que procura perverter a doutrina imutável da Santa Igreja, transformando-a em uma cartilha de luta de classes marxista.

Um dos principais expoentes brasileiros dessa teologia, o religioso dominicano Frei Betto, chegou a declarar: “O que propomos não é teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da teologia”.2

Conhecido por suas posições teológicas contrárias à doutrina social católica tradicional, Frei Betto tornou-se um dos principais assessores de Lula da Silva, e foi designado como consultor especial do Presidente, chegando a ser apresentado como seu orientador espiritual .3

Com ele, subiram ao poder diversos nomes da ala progressista da Igreja, conforme afirma, em significativo artigo intitulado Planalto abre vagas para radicais da Igreja, o articulista Roldão Arruda: “O prestígio da Igreja Católica no atual governo está em alta. Mais precisamente, o prestígio da ala progressista, seguidora da Teologia da Libertação […]. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva já teria dito a amigos e assessores que considera positiva a influência dos progressistas em seu governo”.4

Na mesma linha, o jornal “Valor” publicou um longo estudo sobre o fim do ostracismo a que estava relegada essa ala progressista, demonstrando a íntima ligação do novo Governo com a chamadaTeologia da Libertação,5 que propõe “uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé” (Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação”, de 6-8-1984, da Congregação para a Doutrina da Fé, VI, 9).

O ex-frei Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação no Brasil

Teologia da Libertação no Governo

A doutrina da Teologia da Libertação foi condenada por João Paulo II em sua Alocução de Puebla, em 1979.(6) Apesar dessa condenação, ela continuou a ser amplamente difundida através da esquerda católica em seminários e sacristias.7

Com o advento do Governo do Partido dos Trabalhadores — que nasceu nas sacristias progressistas ao lado do MST (Movimento dos Sem-Terra) — ela alcança postos de grande influência no Governo Federal.

Em artigo recente, publicado no jornal “Correio Braziliense”, Frei Betto faz afirmações reveladoras nesse sentido.

“[…] Contemplo a Esplanada dos Ministérios. Ali está a ministra Marina Silva, seringueira, analfabeta até os 14 anos, militante das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) do Acre. […] Ao lado, Benedita da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social, líder comunitária no morro Chapéu Mangueira, atrás do nosso convento dominicano do Leme, no Rio. Conhecia-a casada com Bola, participante do Movimento Fé e Política. José Fritsch, ministro da Pesca, integrante das CEBs de Chapecó, é discípulo de dom José Gomes.

“No monolito preto do Banco Central, reencontro Henrique Meirelles, militante da JEC (Juventude Estudantil Católica) de Anápolis, movimento do qual fui dirigente nacional nos anos 60. […] No ministério de Minas e Energia está Dilma Roussef, minha vizinha de rua na infância, companheira de cárcere no Presídio Tiradentes, em São Paulo, nos anos 70.  José Graziano, à frente do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, também foi meu companheiro de JEC, responsável pela coordenação estadual em São Paulo […].

“Olívio Dutra, ministro das Cidades, militante da Pastoral Operária. […] Dentro do Palácio do Planalto, a viagem ao passado me traz de volta José Dirceu, líder estudantil que se escondeu em nosso convento de São Paulo, nos anos 60 […].

“O gabinete pessoal do presidente da República é comandado por meu parceiro de Pastoral Operária, Gilberto Carvalho, que foi dirigente nacional do movimento Místico. […] À frente da Secretaria de Imprensa está Ricardo Kotscho, com quem fundei Grupos de Oração, ativos há 23 anos. Ao lado de minha sala está o gabinete presidencial […] agora, na Esplanada dos Ministérios, somos uma comunidade responsável pelo governo do Brasil”.8

Pouco depois, Lula ainda nomeou outros nomes ligados à esquerda católica, como o ex-membro da CPT (Comissão Pastoral da Terra) para Presidente do INCRA, Marcelo Resende, que chega a usar “na mão esquerda um anel escuro feito de tucum, palmeira típica da região Norte do País. É um ornamento que […] é usado por padres, freiras e leigos vinculados à ala progressista da Igreja Católica. Destina-se sobretudo a mostrar o compromisso radical com as causas populares”.9

É preocupante ver que uma corrente teológica, condenada pela Santa Sé por alterar a doutrina católica e pregar a revolução social, possa ter uma influência tão grande na vida pública do País e na elaboração das políticas governamentais.

Não foi por acaso que outro dos expoentes da Teologia da Libertação, o ex-frei Leonardo Boff, declarou ao “Jornal do Brasil”, pouco antes das eleições: “O palco para esta revolução necessária, a revolução brasileira, está montado nestas eleições presidenciais”.10

A TFP, já no início da década de 80, tinha alertado a opinião pública sobre o perigo representado pelas Comunidades Eclesiais de Base

CEBs: sovietes para o programa Fome Zero?

Como braço organizado da Teologia da Libertação, surgiram as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que são pequenos grupos formados por iniciativa do clero e de agentes pastorais, em torno das paróquias e capelas.

Sobre elas, a TFP publicou um esclarecedor estudo intitulado As CEBs… das quais muito se fala, pouco se conhece – A TFP as descreve como são.

O termo Comunidade de Base, segundo D. Miguel Balaguer, Bispo de Tacuarembó (Uruguai) na década de 80, tem uma curiosa explicação: “[…] Agora elas foram batizadas com o nome de ‘comunidades de base’; expressão inspirada na terminologia marxista, equivalente a soviete”.11

Recentemente foi noticiado que Frei Betto está articulando a ajuda dessas CEBs ao Programa Fome Zero. Não se sabe ainda como será esse auxílio, mas há algumas informações preocupantes a respeito.

Em entrevista à imprensa, o ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e de Combate à Fome, José Graziano, afirmou: “Na nossa concepção, não importa a fiscalização de como foi feito o gasto. O que importa é a organização popular que uma ação como a do Cartão-Alimentação promove. […] Cria um embrião de organização local: os comitês gestores”.12

Esses objetivos do Governo valeram um editorial da “Folha de S. Paulo”, que apontou o caráter autoritário do projeto Fome Zero: “Seria mais simples e digno reconhecer como desastrosa a idéia de que os pobres que fazem jus ao benefício têm de ser tutelados por conselhos gestores (de inspiração cubana?) ou por quem quer que seja”.13

*      *          *

O Brasil encontra-se diante de um novo e apreensivo panorama: a presença ostensiva de alguns dos mais exacerbados próceres da Teologia da Libertação em posições importantes do novo governo.

O eleitorado brasileiro, cujo conservadorismo foi reconhecido até por políticos e jornalistas dos mais variados matizes, vê agora a mais esquerdista tendência do progressismo católico assumir uma posição de grande destaque na direção do País. Não era isso que ele esperava.

Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, proteja nossa Pátria, preservando-a dos erros da Teologia da Libertação.

A Crise na Igreja: O que disseram os Papas

O Papa São Pio X, na encíclica em que condenou o modernismo (precursor do progressismo), advertiu que “os fautores do erro […] se ocultam no próprio seio da Igreja, […] por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela”(*).

Nesse mesmo sentido, advertiu Paulo VI: “A Igreja atravessa hoje um momento de inquietude. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a auto-demolição. […] A Igreja é golpeada também pelos que dela fazem parte”(**). O  mesmo pontífice afirmou ter a sensação de que “por alguma fissura tenha entrado a fumaça de satanás no templo de Deus”(***).

Também João Paulo II, em diversas ocasiões, tem-se referido aos problemas do mundo moderno e à sua relação com a tempestade que se abate sobre a Santa Igreja. Em alocução aos Religiosos e Sacerdotes participantes do I Congresso Nacional Italiano sobre o tema “Missões ao Povo para os Anos 80”, em 6-2-81, ele traçou um panorama sombrio da situação da Igreja, afirmando que muitos destes problemas incluem a difusão de“verdadeiras e próprias heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia”.

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(*) Encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 8/9/1907, Ed. Vozes, Petrópolis, 1959, p. 4.

(**) Alocução aos alunos do Seminário Lombardo —Insegnamenti di Paolo VI, Tip. Pol. Vaticana, vol. VI, p. 1188, apud Plinio Corrêa de Oliveira, G. A. Solimeo, L. S. Solimeo, “As Cebs…”,p. 71.

(***) Alocução de 29-6-72 — Insegnamenti…”, vol. X, p. 707, apud. op. cit., p. 71.

Notas:

1. Carta ao Círculo Santo Ambrósio, de Milão, de 6-3-1873, apud Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Diário das Leis Ltda., S. Paulo, 1982, 2ª. ed. p. 27.

2. Marxismo na Teologia, in  “Jornal do Brasil”, 6-4-80.

3. Frei Betto passou quatro anos na prisão, condenado pela justiça por envolvimento com a guerrilha urbana de Carlos Marighela, e é, juntamente com o ex-frei Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação.

4. “O Estado de S. Paulo”, 23-2-03.

5. O frade e o Presidente, Vivas ao irmão Lula, “Valor”, S. Paulo, 27, 28 e 29/12-02.

6. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Libreria Editrice Vaticana, vol. II, 1979, pp. 192-193, apud. Plinio Corrêa de Oliveira, G. A. Solimeo, L. S. Solimeo, As CEBs… das quais muito se fala, pouco se conhece – A TFP as descreve como são, Ed. Vera Cruz, 4ª ed., 1983, p. 75.

7. A esquerda católica poderia ser definida como uma seita progressista encastoada no seio da Igreja, inspirada na Teologia da Libertação.

8. “Correio Braziliense”, 23-1-03.

9. “O Estado de S. Paulo”, 8-3-03.

10. Quem faz a revolução?, “Jornal do Brasil”, 23-8-02.

11. As CEBs…, op. cit., p. 122.

12. Marta Salomon, Graziano indica que Vale-Gás e Bolsa-Renda podem acabar, “Folha de S. Paulo”, 2-2-03.

13. Pai dos pobres, “Folha de S. Paulo”, 2-2-03.

* Cientista político pela Universidade de Brasília.

Artigo oferecido pela Revista Catolicismo.

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