Por que a Igreja Católica é a única verdadeira?

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A Palavra do Sacerdote – extraído da Revista Catolicismo, Junho 2004
Cônego José Luiz Villac

Monsenhor José Luiz Villac

Pergunta Estive visitando o site www.catolicismo.com.br e o achei muito informativo. Sou católica, mas ultimamente tenho pensado em algumas coisas que gostaria de esclarecer. Li a explicação a respeito da Igreja Católica, como ela surgiu. Foi no momento em que o Espírito Santo tocou os Apóstolos e dessa forma nasceu a Igreja. Creio que essa seja uma interpretação da Igreja Católica. Mas eu gostaria de saber se há uma afirmação concreta de que Jesus falou que ela é a verdadeira e a única que salva. Baseando-se em textos bíblicos, realmente. Pois o próprio Jesus Cristo disse: Quem se reunir com duas ou mais pessoas em meu nome, eu estarei presente. Não necessariamente na Igreja Católica, mas em qualquer bom lugar edificado que fale em seu nome. Por essa e outras passagens, creio que a Igreja Católica é a casa do Senhor, mas não somente essa, e sim, como está em Efésios (2, 21), todo edifício bem ajustado… E sobre Pedro ser o primeiro Papa, Jesus falou: Ninguém vem ao Pai a não ser por mim… Não creio que somente os Papas podem ler a Bíblia, pois ela é vendida em todos os lugares, e Deus a escreveu para que crêssemos Nele. Bom, essas são as minhas dúvidas. Se o senhor puder me esclarecer, ficarei grata.


Resposta É interessante notar como a missivista quer uma resposta baseada “em textos bíblicos, realmente”. Tratando-se de uma católica, como está afirmado em sua carta, vê-se que ela está influenciada pela idéia, hoje muito difundida, de que toda a Revelação feita por Nosso Senhor Jesus Cristo está contida só na Bíblia. Ora, isto não corresponde à realidade dos fatos. Aliás, em nenhum lugar da Bíblia está escrito que só na Bíblia está a palavra de Deus…

Catedral de Notre Dame, Paris

Bíblia: necessária mas insuficiente

Mais de uma vez lembramos nesta coluna que a ordem de Jesus Cristo a seus discípulos foi: “Ide e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). A difusão da Boa Nova deu-se, pois, primeiro pela pregação, e só mais tarde os discípulos houveram por bem escrever os ensinamentos que tinham ouvido de Jesus Cristo.

E, ao fazerem-no, não tiveram a preocupação de compor uma obra absolutamente sistemática — acadêmica, diríamos hoje. Fizeram-no inspirados pelo Divino Espírito Santo, mas movidos pela graça, ao sabor de suas preferências, salientando os pontos que mais os haviam impressionado. Daí a variedade de estilos e conteúdos dos escritos dos Apóstolos e discípulos, que se completam uns aos outros, apresentando uma visão unitária e coerente da doutrina do Divino Mestre, sem entretanto abranger a totalidade dos seus ensinamentos. O Evangelho de São João conclui precisamente com esta eloqüente observação: a Terra não poderia conter os volumes que seria preciso escrever para transmitir todos os ensinamentos e fatos da vida de Cristo (cfr. Jo 21, 25).

De onde resulta que é preciso recorrer também à pregação viva, que nunca se interrompeu na Igreja, e que constitui a teologicamente denominada Tradição. Bíblia e Tradição formam as duas fontes da Revelação. Inclusive, muitas passagens da Bíblia só são perfeitamente compreendidas à luz da Tradição.

Não cabe, portanto, restringir exclusivamente à Sagrada Escritura as provas das verdades de nossa Fé. Muitas são encontradas nas citações bíblicas, mas outras nos chegam através da Tradição. E ao Magistério da Igreja incumbe guardar esse precioso depósito da Fé e interpretá-lo sem erro. Com efeito, Jesus Cristo prometeu, depois que subisse ao Pai, enviar o Espírito Santo sobre os Apóstolos, para guiar a Igreja em sua caminhada ao longo dos séculos, de forma que seu ensinamento não se deturpasse com o passar do tempo. É essa assistência do Espírito Santo que garante a infalibilidade do Magistério da Igreja.
Isto posto, vamos às dúvidas da consulente.

“E eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edifcarei a minha Igreja” (Mt 16, 18). A Igreja verdadeira está edificada sobre o Papado

Fora da Igreja não há salvação

Se a salvação nos vem por Jesus Cristo, e só através d’Ele, é óbvio que devemos procurá-la na Igreja por Ele fundada. Ora, Nosso Senhor disse a Pedro: “E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18). A Igreja de Jesus Cristo é, portanto, a que está edificada sobre o Papado. Esta é a única Igreja verdadeira, fora da qual não há salvação. É o rebanho de Cristo, é o Reino de Cristo na terra, é o Corpo Místico, do qual Ele é a divina Cabeça.

Como vê a consulente, esta verdade se apóia num texto bíblico (aliás, em vários outros também), mas é necessário um raciocínio teológico para explicitar o conteúdo do texto bíblico. Este é o papel do Magistério eclesiástico, que se desenvolve sob o bafejo do Espírito Santo, como acima dissemos, e resguardado pela Infalibilidade Pontifícia.

Sobre o caso das almas retas que estão fora do corpo da Igreja, e que entretanto se salvam, é assunto já tratado nesta coluna (cfr. Catolicismo nº 617, maio de 2002). Como o tema é delicado e complexo, remetemos o leitor para esse artigo, em que a questão é analisada em seus matizes.

São Paulo diante da Basílica de São Pedro

“Eu estarei no meio deles”

A consulente tem razão em dizer que não é apenas no templo católico que se cumpre a promessa de Nosso Senhor: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). O templo é a casa de Deus por excelência, tanto mais quanto, em grande número de casos, Jesus Eucarístico estará realmente e substancialmente presente no Sacrário. Mas em todo outro lugar em que os fiéis se reunirem para tratar dos interesses de Deus, contarão com a presença espiritual de Jesus no meio deles.

A missivista entretanto não parece fazer a distinção devida entre a Igreja Católica enquanto instituição, e a igreja (com minúscula), isto é, o templo (edifício) no qual se realiza o culto divino.

Quanto à referência de São Paulo a “todo edifício bem ordenado” (Ef 2, 21), ela não tem em vista o edifício sagrado, mas o edifício espiritual que cada um deve edificar em si mesmo para transformá-lo no “templo santo do Senhor”. Eis suas palavras: “Vós, pois, já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a pedra angular, sobre o qual todo o edifício [espiritual] bem ordenado se levanta para ser um templo santo do Senhor, sobre o qual vós sois também juntamente edificados para morada de Deus, mediante o Espírito [Santo]” (Ef. 2, 19-22 — tradução do Pe. Matos Soares).

A Bíblia não é só para o Papa!

Sem dúvida, a leitura da Bíblia não é reservada só ao Papa, mas recomendável a todo cristão que esteja em condições de tirar proveito espiritual dela. Naturalmente, fala-se aqui de uma edição que tenha a expressa aprovação da Igreja.

Não convém entretanto imaginar que qualquer fiel que se põe a ler a Bíblia tem só por isso proveito garantido. Se a pessoa não tiver formação adequada, e não procurar acompanhar a leitura do texto bíblico com os comentários de autores abalizados, esse ato, de si louvável, pode redundar até em prejuízo para a própria fé. Pois a Bíblia contém freqüentemente passagens misteriosas, que só com o auxílio de um especialista se podem compreender.

Daí a verdadeira insensatez do mau conselho protestante de pôr a Bíblia nas mãos de qualquer um, de qualquer jeito. Facilmente ele se confunde e começa a tirar conclusões completamente infundadas.

Esses são os esclarecimentos que queríamos oferecer à gentil missivista.

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