Terceira Via: Centro radical ou etapa avançada do marxismo?

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“Apresentada como alternativa entre direita e esquerda, a Terceira Via ruma de fato para a fase mais adiantada da revolução marxista”

Um dos eventos principais deste século foi a implantação do regime comunista na Rússia, o mais tirânico que a História registra.

De 1917 (ano da revolução bolchevique) a esta parte, vários países, em todos os continentes, sofreram em maior ou menor grau as conseqüências da difusão da doutrina comunista, atingindo os mais variados campos da atividade humana: religioso, cultural, social, político e econômico. A partir de então, praticamente todas as guerras, guerrilhas, perseguições e massacres tiveram como mola propulsora a aceitação ou rejeição desse regime.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989 e, dois anos depois, da URSS, encerrou-se o modelo soviético de revolução comunista. Os efeitos desastrosos de mais de 70 anos de ditadura do proletariado na Rússia e nos países satélites ficaram expostos aos olhos do mundo.

Porém, mais do que horrorizar-se diante desse  estado de coisas, tornou-se premente revertê-lo. Deixar tais países à deriva, além de ser inumano, poderia provocar invasões da Europa Ocidental por hordas de neobárbaros.

Assim, fazer com que tais nações adotassem o sistema de iniciativa privada e propriedade particular seria a solução salvadora.

Fracassos econômicos a Leste e a Oeste

Seguindo esse raciocínio, e visando recuperar a parte oriental de seu território liberada do jugo comunista, a Alemanha ali despejou centenas de bilhões de dólares, depois da unificação. Apesar disso, tal política ficou frustrada, em boa medida por encontrar na população do Leste uma indolência enraizada, triste herança de décadas de medo e de falta de iniciativa. E é apontada como uma das causas da recente derrota eleitoral de Helmut Kohl.

Aproximadamente no mesmo período, na Rússia, as inversões de capital vieram de bancos e outras instituições financeiras ocidentais. O potencial de consumo de um futuro mercado russo serviu de estímulo a temerários investimentos por parte do Ocidente.

Por razoes que escapam aos limites deste artigo, mas que se ligam à mesma indolência já referida e a outros fatores, também lá essa maciça inversão de capital teve insucesso. E a bancarrota da Rússia está na origem de desequilíbrios financeiros e econômicos muito além de suas fronteiras.

Tais fracassos seriam absorvíveis se, por seu turno, o capitalismo globalizado não estivesse também em crise. Como manifestação mais protuberante dela, cabe lembrar de passagem a crise financeira que assolou seriamente e ainda abala a economia de países asiáticos. Além dos Tigres asiáticos, o próprio Japão não escapou ao furacão financeiro.

Desse modo, países que adotaram o modelo do capitalismo globalizado estão encontrando dificuldades cada vez maiores para solucionar seus problemas. A busca desenfreada de riquezas tem produzido distorções até mesmo na robusta economia norte-americana.

Terceira Via: nova panacéia

Há alguns anos, aquilo que poderíamos chamar de intelligentsia esquerdista vem propalando o fracasso de ambos os modelos, e sugere algo novo: nem capitalismo, nem comunismo. Uma nova via — a terceira — seria a saída para o impasse. A idéia, proveniente de velhos marxistas, causa suspeitas…

Essa Terceira Via teria, dizem eles, o apoio das massas. Na Alemanha, a recente vitória social-democrata nas urnas guindou ao poder Gerhard Schröeder, pondo fim a 16 anos de governo da Democracia cristã, tido como conservador. Com tal vitória, 9 dos 11 países da União Européia têm hoje governos social-democratas, socialistas ou trabalhistas.

A respeito da Terceira Via muito se fala, pouco se conhece. Qual é a sua doutrina? No que ela se distingue do socialismo? Há nela elementos de capitalismo, de marxismo? Qual a consistência dessa via? O que dizem dela seus propugnadores?

O corifeu, o mestre e a escola

Na Inglaterra, a eleição para Primeiro-ministro de Tony Blair, em maio de 1997, encerrou 18 anos de governo conservador. É ele o corifeu dessa Terceira Via. Por trás do Primeiro-ministro britânico, e apontado como seu mentor intelectual, há uma figura: o professor Anthony Giddens. E há também uma escola, a prestigiada London School of Economics, da qual Giddens é o diretor.

Autor do livro Para além da esquerda e da direita, Giddens acaba de publicar outra obra, The Third Way (A Terceira Via). A esse propósito, artigos e entrevistas têm sido estampados pela mídia. Contudo, o perfil real que emerge da Terceira Via não podia ser outro: uma esquerda disfarçada de centro. Por suas próprias características, ela tem que aparecer sorridente. Suas definições são vagas e imprecisas. Em seus métodos, não estão ausentes elementos da velha praxis marxista. Sua meta, sobretudo, coincide com o objetivo último da esquerda: uma sociedade igualitária.

Em entrevista a “Veja”, Giddens diz: “A expressão ‘terceira via’ …. nas últimas três décadas foi muito empregada na Europa, sobretudo em países como a Itália e a Suécia, exatamente nessa linha de socialismo de mercado. Falava-se num sistema misto, combinando planejamento central e instituições do mercado. A maioria dos estudos, porém, demonstra que a idéia é inviável. Resultaria em desemprego, estagnação, caos financeiro. Não existe ‘terceira via’ desse tipo” (“Veja”, 30-9-98, p. 11).

“A ‘terceira via’ defendida por nós é a social-democracia modernizada. Ela é um movimento de centro-esquerda, ou do que temos chamado de ‘centro radical’. Radical, porque não abandonou a política de solidariedade que tradicionalmente foi defendida pela esquerda. De centro, porque reconhece a necessidade de trabalhar alianças que proporcionem uma base para ações práticas. Da comparação entre os diversos países que têm lidado com essa hipótese, percebe-se que está emergindo uma agenda comum. Seus principais objetivos são (1) a reforma do Estado, (2) a revitalização da sociedade civil, (3) a criação de fórmulas para o desenvolvimento sustentado, (4) preocupação com uma nova política internacional. Dito assim parece vago, mas é exatamente o que políticos como o inglês Tony Blair, o francês Lionel Jospin, o italiano Romano Prodi e, por que não?, Fernando Henrique Cardoso estão fazendo hoje em dia” (id., ib., os números acima são da redação).

Definição que não define

Pelo menos num ponto estamos de acordo: essa definição é realmente vaga. E além disso não define, como veremos.

Quanto a ser “radical porque não abandonou a política de solidariedade que tradicionalmente foi defendida pela esquerda, cabe perguntar: a política tradicional da esquerda foi a ‘socialização’ dos meios de produção, a coletivização” dos campos, a perseguição dos que discordavam dela, o envio de centenas de milhares de pessoas aos gulags, aos paredões etc. É isto ser solidário? Com quem? Com os da esquerda?

E quanto a ser de centro, o que é trabalhar alianças para ações práticas? Significaria que Stalin, quando sentou-se junto a Churchill e Roosevelt, em Yalta, seria ele também de centro, por querer estabelecer alianças visando ações práticas para açambarcar meia Europa?

É extremamente preocupante saber que países como os acima citados têm lidado com essa hipótese. Hipótese da qual emerge uma agenda comum, cujos quatro principais objetivos, amplíssimos, atingem o conjunto da sociedade. Tanto mais que, sentindo a falta de substância dessa “terceira via”, seu principal teórico apressa-se em afirmar: parece vago. E, segundo ele, só não seria vago porque tal “via” está sendo adotada em diversos países… É como afirmar que uma frase deixa de ter um sentido vago, só porque 3 ou 4 pessoas a pronunciaram! É desconcertante esse raciocínio, se é que se pode chamar a isso de raciocínio!

A respeito dos quatro principais objetivos apresentados por Giddens, é preciso ainda indagar: como e em que sentido deve ser entendida a reforma do Estado? Reformar o quê? Para se chegar a quê?

E a questão da revitalização da sociedade? Revitalizar é dar vida novamente à sociedade, composta de dois setores: público e privado. Vejamos o que Giddens pensa a propósito disso.

Respondendo à questão da legitimidade ou não de haver cada vez mais leis regulando a vida privada, diz:

“A democracia ainda está tentando criar laços com uma vida privada que foi completamente revolucionada nas últimas décadas. Culturalmente, a sexualidade saiu do domínio da tradição … O fato de nascer com esse ou aquele gênero não estrutura mais nossos papéis na vida …. Ser homem significava ter um destino mais ou menos traçado no mercado de trabalho. Ser mulher significava ter um destino previsível: casar, gerar filhos ou então encaixar-se em outras categorias, como a da prostituta e a da santa. Ser homossexual, num país como a Inglaterra, significava ter grandes chances de se encrencar com a polícia. Mas a democracia penetrou na vida cotidiana. Homens, mulheres e até mesmo crianças estão aprendendo a tratar-se como iguais. Tal mudança cria ansiedades que às vezes precisam ser controladas por meio da lei”.

Ante a indagação do repórter se “isso é bom ou ruim”, Giddens responde: “Pessoalmente, prefiro pensar na carga de transformação progressista contida nisso tudo”.. (id., ib.)

Aqui Giddens, além de radical, é ladino.

Segundo ele, a  “democracia” precisa “criar laços com uma vida privada … revolucionada”. No sentido de que a “sexualidade saiu do domínio da tradição”. Isto é, o homem, a mulher e o homossexual não significam a mesma coisa que no passado. O papel do homem alterou-se: Há homens que cuidam dos filhos e mulheres que trabalham fora. Há famílias monoparentais. Existem os homossexuais, que já não encrencam com a polícia. Como “a democracia” entrou e todos “estão aprendendo a tratar-se como iguais”, deve-se legislar para acabar com as “ansiedades”. Então, resta saber: se um homossexual vive com outro, e ambos têm ansiedades para serem considerados um “casal”, é preciso legislar para efetivar a democracia que considera todos iguais?… É bem isso o que está insinuado no seu raciocínio? Tudo leva a crer que sim.

Para um relativista, tal fenômeno não pode ser qualificado de bom ou ruim, verdadeiro ou errado. É preferível “pensar na carga de transformação progressista contida nisso tudo”…

Definição que define: socialismo democrático

Seguindo os passos desse mestre, o Primeiro-ministro Tony Blair afirmou: “A Terceira Via …. não é simplesmente um acordo entre a esquerda e a direita. Ela busca pegar os valores essenciais do centro e do centro-esquerda e aplicá-los a um mundo de mudanças sociais e econômicas fundamentais e fazer isso livre de ideologias ultrapassadas”(“A Terceira Via — Uma social-democracia moderna” in “O Estado de S. Paulo”, 21-9-98). Quais são “esses valores essenciais do centro e do centro-esquerda a serem aplicados a um mundo de mudanças sociais e econômicas fundamentais?”

Procurando explicitar seu pensamento, o Primeiro-ministro inglês afirma: “A Terceira Via …. extrai vitalidade da união das duas grandes correntes de pensamento à esquerda e ao centro — socialismo democrático e liberalismo — cujo divórcio neste século tanto fez para enfraquecer a política progressista em todo o Ocidente”(Idem). Portanto, a força motora dessa nova via está no socialismo democrático e no liberalismo. (id., ib.). O que são eles?

O socialismo democrático, ao que parece, seria aquele sistema sócio-econômico-político em que o governo do povo (democracia) soma-se ao socialismo, este último responsável por uma distribuição igualitária dos bens (economia) e um nivelamento social. Seria diferente do socialismo clássico no sentido de que, neste, tal distribuição e tal nivelamento se operavam pela força de um poder estatal onipotente. Na nova “terceira via” se operariam por força de um consenso popular democrático. Estamos pois no reino da pura utopia.

A esse estado de coisas se acrescentaria o liberalismo, mas não mais o liberalismo clássico, em cujo sistema a livre concorrência no mercado e a livre iniciativa levavam a desigualdades maiores ou menores de fortuna e de situação social. O liberalismo da terceira-via, ao mesmo tempo que parece abrir campo a uma certa iniciativa privada, julga poder contê-la dentro dos limites de um igualitarismo social e econômico. Quais seriam os mecanismos de controle para evitar as desigualdades, uma vez que o Estado dirigista parece estar fora de cogitação? Ao que tudo indica, estamos novamente diante da idéia de uma regulamentação consensual levada a cabo pelo Estado de acordo com os particulares. Ou seja, um Estado fraco e um conjunto de organizações näo-estatais de múltiplas cabeças atuando de comum acordo. Os grandes conglomerados, formados nos vários campos da atividade econômica — financeira, industrial, comercial — seriam os parceiros do Estado na direção do País.

Se for assim, é preciso convir que estamos diante de uma concepção singular de liberalismo, na qual este acaba por se confundir com o socialismo, uma vez que o pequeno proprietário e o pequeno investidor pouca ou nenhuma liberdade teriam para se afirmar diante de molochs estatais ou privados, pouco importa, que exerceriam verdadeiro poder monopolístico e imporiam suas condições e seu domínio.

Tudo isso, entretanto, é muito vago, para não dizer que é muito confuso.

Em qualquer caso, porém, olhando a realidade e não a utopia, fica-se a um passo da realização da meta última do marxismo, ou seja, a abolição do Estado em favor de um mundo sem governos nem desigualdades, mas que por um passe de mágica ainda não explicado mergulharia, sem se autodestruir, na an-arquia (sem governo). Será este o objetivo dessa nova via?

O que Blair diz em continuação parece confirmar tal hipótese. Vejamos.

Novidade: veneno oculto da serpente!

De fato, a Terceira Via vai longe. Com um tom por assim dizer profético, continua Blair: “Também devemos reinventar o próprio governo para a nova era. [Os]governos precisam aprender novas habilidades: trabalhar em parceria com os setores privado e voluntário; dividir a responsabilidade e responder a um público muito mais exigente”(id., ib.).

Em outras palavras, o governo para a nova era deve despojar-se, ao menos em boa medida, de seu papel governativo, equiparar-se ao setor privado, compartilhar a responsabilidade e prestar contas, talvez de igual para igual, a um público mais exigente. É preciso reconhecer, os comunistas, historicamente, não tinham chegado até esse ponto. O chamado “socialismo real” soviético, chinês ou cubano ficou nos limites do Estado totalitário.

Mas não é de surpreender. Em seu já célebre ensaio Revolução e Contra-revolução, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira tratou da IV Revolução nascente, que sucede às três anteriores — a Pseudo-Reforma Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Comunista –, nos seguintes termos: “Ela deverá ser a derrocada da ditadura do proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual — dizem os comunistas — o homem terá alcançado um grau de liberdade, de igualdade e de fraternidade até aqui insuspeitável” (Revolução e Contra-revolução, Parte III, cap. III, 1, p. 180, 4ª ed., Artpress, São Paulo, 1998).

Representa a Terceira Via uma tentativa de implementar essa etapa? É certo que há um esforço incomum propalando as virtudes dessa via. Porém, não é possível saber se, diante das inúmeras crises que se acumulam no horizonte, ela se desenvolverá inteiramente, no sentido de tentar alcançar de pronto aquele estado de coisas utópico, propugnado pelos mais avançados revolucionários comunistas.

 

Extraído da Revista Catolicismo de Novembro de 1998

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