Certa manhã de primavera a história – Generalíssima história – já consolidada – talvez não por completo, porém consolidada – ordenou a seus soldados:

– Vão! Já é hora de continuar a nossa história. A mim cabe dar o exemplo, aos senhores segui-lo. Ide, pois a história precisa continuar!

Em alto brado todos disseram:

– Pronto! Tomaremos nosso rumo.

– Pois bem – disse a generalíssima -, junto de vossos rumos retomem as colinas, as montanhas, as praias, as cidades e as florestas. Retomem de volta tudo aquilo que roubaram de nós – provavelmente era uma guerra justa observando a situação.

– Sim Senhora! – bradaram os soldados.

Assim sucedeu-se. Todos reconquistaram os territórios, as províncias e as cidades perdidas. Tempo longínquo! Duraram anos. Em alguns locais, séculos.

Era perceptível a vontade de cumprirem a ordem da Generalíssima! Era notável a vontade de recuperarem suas pátrias. Uma vontade que soluçava.

Porém, a história de outros generais acabou encantando alguns soldados. E não eram simplesmente soldados, mas os melhores do exército.

Sutilmente os locais reconquistados foram perdendo significado…foram substituídos por histórias melhores – pelo menos na cabeça deles. Fora essa uma traição? Sim. A mais dura das traições. Dos mais fiéis guerreiros. Daqueles a quem a Generalíssima colocava mais confiança. Eles haviam selado um acordo entre suas histórias e o mundo.

Em uma tarde de primavera ouvira a Generalíssima da boca de um estranho, que houvera dentro de teu próprio exército uma revolta. Desertores agora comandavam seus soldados. O que restou de seu exército? Ou melhor, restou algo? Sim. Mas a sobra era uma parcela insignificante de medíocres. A situação era caótica.

Analisando a situação dentro de sua sala de estratégia resolveu convocar uma reunião. Seria essa uma reunião com os medíocres?

– Pois bem meus queridos soldados, os únicos que sobraram – disse a anfitriã. Venho trazer atualizações a respeito da fatídica revolução que ocorrera dentro de nosso batalhão. É necessário que retomemos com muito suor e sofrimento os territórios novamente perdidos. Eu sou a Generalíssima história, vós sois parte de mim também. As vossas histórias importam! Lutemos agora para retomar o que fora perdido novamente. É essa a batalha mais decisiva deste conflito. Quem está disposto a sofrer pela boa causa!?

 

…silêncio

 

A Generalíssima com um brado não esperava uma resposta tão significativa – ou melhor, não houve resposta alguma. Um silêncio total tomou o espaço da reunião…

– O que há? – disse a Generalíssima. O silêncio continuou e ela percebeu finalmente o relaxo que havia ceifado a tropa. Maldita revolução! Tomara agora até o coração de seus soldados. Porém, apesar de contrariada ela continuou:

– É necessário que alguém sofra. Esse é o objetivo de nossa história. A história constrói-se baseando, sobretudo em uma agulha central – o sofrimento.

 

…o silêncio continuou

 

– Qual é a importância da nossa história para os senhores? Os senhores não conseguem enxergar a quão bem essa história nos fez? Os senhores fazem algo por ela?  É assim que retribuem tudo aquilo que ela vos deu? Os senhores verdadeiramente a amam como dizem?

 

…o silêncio continuou…um último sermão iniciou-se.

 

– Tu!. Pelo menos tu não tens amor por nossa história? E tu no fundo? E tu à minha frente? Não lhes sobra um pingo de remorso? Venham comigo. Eu entendo que é difícil. Mas é o que fazemos! Nascemos para isso!

 

…o silêncio tomou o espaço novamente

 

Era um silêncio que abalava até a natureza. Os pássaros que pousavam nas árvores ao redor da sala caiam mortos no chão. Era uma verdadeira solitária. Parecera que haviam durado anos – quem sabe milênios? Séculos? E ali ficaram os soldados.

Como era possível um exército tão poderoso ser reduzido a um átomo de hidrogênio?

A anfitriã – a Generalíssima – colocou sua armadura, montou em seu cavalo e partiu para qualquer lugar que só Deus sabe onde era. Chegando nesse lugar ela ofereceu amor em holocausto e prometeu a vida para recuperar a história de seus homens.

 

Uma agulha caiu,

Toda uma história foi-se embora.

 

Durante uma noite de primavera, aproximadamente às 20h do dia 15 de abril de 2019 a agulha da própria história caiu em chamas. Afogou-se em chamas como uma Santa Joana d’Arc se afogara há exatos 588 anos.

Fora essa uma profecia cumprida? Fora isso um aviso à França? Deus sabe responder certeiramente à muitas perguntas, mas a pergunta que fica a nós católicos é a seguinte: para onde estamos levando a Santa Igreja? Para qual precipício nós estamos a levando?

Fernando Pessoa – sim, Fernando Pessoa – talvez soubesse retratar muito bem o que esse fato significa. A noite – sim, ela por excelência – cativa o homem. A noite é verdadeiramente aquilo que um homem que ama o sofrimento deseja. Sim. É sublime. É durante ela que é belo crer na luz.

 

Vem soleníssima,

Soleníssima e cheia

De uma oculta vontade de soluçar,

Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.

E todos os gestos não saem do nosso corpo

E só alcançamos onde o nosso braço chega,

E só vemos até onde chega o nosso olhar.

 

O fogo em Notre-Dame nos diz algo…algo que a consciência meramente humana parece não alcançar. Se fora esse um fogaréu de amor por que dói tanto? Por que a providência exige esse tipo de pena? “Por que tanta insistência? Porque é insistente nossa covardia.

 Resolvemo-nos a tomar nossa cruz, mas a covardia volta sempre à carga. E para que ela ficasse sem pretextos em nossa fraqueza, quisestes Vós mesmo repetir três vezes a lição.

Sim, nossa fraqueza não pode servir-nos de pretexto. A graça, que Deus nunca recusa, pode o que as forças meramente naturais não poderiam.

Deus quer ser servido até o último alento, até a extenuação da última energia, e multiplica nossas capacidades de sofrer e de agir, para que nossa dedicação chegue aos extremos do imprevisível, do inverossímil, do miraculoso.

 A medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medidas, disse São Francisco de Sales. A medida de lutar por Deus consiste em lutar sem medidas, diríamos nós.

Eu, porém, como me canso depressa! Nas minhas obras de apostolado, o menor sacrifício me detém, o menor esforço me causa horror, a menor luta me põe em fuga.

Gosto do apostolado, sim. De um apostolado inteiramente conforme com minhas preferências e fantasias, a que me entrego quando quero, como quero, porque quero. E depois julgo ter feito a Deus uma imensa esmola.

Mas Deus não se contenta com isto. Para a Igreja, quer Ele toda a minha vida, quer organização, quer sagacidade, quer intrepidez, quer a inocência da pomba mas a astúcia da serpente, a doçura da ovelha mas a cólera irresistível e avassaladora do leão.

Se for preciso sacrificar carreira, amizades, vínculos de parentesco, vaidades mesquinhas, hábitos inveterados, para servir a Nosso Senhor, devo fazê-lo.

Pois que este passo da Paixão me ensina que a Deus devemos dar tudo, absolutamente tudo. E depois de termos dado tudo ainda devemos dar a nossa própria vida.”

 

Plínio Corrêa de Oliveira

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