Seis personagens à procura de um autor

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Reflexões a respeito da pantanosa e indefinida conjuntura política brasileira, em que candidatos e pré-candidatos à Presidência não satisfazem um eleitorado cada vez mais descontente.

Na noite do dia de Páscoa do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2002, este colaborador de Catolicismo acordou de madrugada, com a perspectiva de uma insônia.

Pensando no quadro eleitoral confuso e preocupante para a escolha do novo Chefe da Nação, como tema de um artigo para a edição de maio da revista, e veio-lhe à mente o título acima, de uma peça teatral de sucesso há algumas dezenas de anos.

Sem autor nem seis personagens

No caso concreto, não há um autor a procurar, mas aproximadamente 100 milhões de brasileiros que terão de escolher em outubro próximo seu futuro presidente.

Também não existem, a esta altura do ano eleitoral, seis personagens. Um número muito superior a meia dúzia, de candidatos e pré-candidatos, passou pela memória de quem vos escreve. Eles serão escolhidos ou preteridos por algum partido ou coligação, na ocasião oportuna. Dentre os poucos a serem oficializados, somente dois ou três têm chance de passar pelo 1º turno, e apenas dois disputarão o 2º, caso este se realize, como parece provável.

No centro-esquerda

Do lado do atual governo, que afinal terminará após um período de oito anos — com a inédita reeleição aprovada em 1988 — há um nome escolhido. É o ex-ministro da Saúde, que desponta no momento como discípulo de preferência do atual presidente. Tido como pouco popular, passou a liderar o bloco dos candidatos que disputam o 2º lugar nas pesquisas. Sob o impacto do golpe que sofreu sua principal adversária — numa ação da Polícia Federal, a respeito da qual muitos acusam o candidato governista de ter agido nos bastidores para sua realização — pairam ainda dúvidas sobre a viabilidade de seu nome, no quadro de candidatos da linha de centro-esquerda.

Acusações sobre o passado comunista dele e de muitos de seus principais assessores estão aparecendo na imprensa. Na “guerra de rabos de palha”, que se inaugurou, há quem indague se ele sobreviverá. Mas os nomes que o poderão substituir ainda estão na moita, à espera de que os rumos incertos da política indiquem uma solução. E entre as saídas viáveis não se pode afastar a hipótese de uma recomposição da aliança das forças de centro-esquerda, que conseguiram vencer os dois últimos pleitos presidenciais.

Na esquerda clássica

Na esquerda, um eterno candidato continua à frente das pesquisas. Sua estratégia em apresentar-se light, que pareceria atrair grande parte do eleitorado — inclusive um contingente destacado dentre aqueles que o inesquecível inspirador desta revista, Plinio Corrêa de Oliveira, chamava de empresariado sapo (isto é, capitalistas com simpatia pelo comunismo) — aparenta ter entrado em decadência desde os atentados de 11 de setembro. Surgiu a partir de então a reação, em escala universal, de uma parcela conservadora da opinião pública, inconformada e desanimada com o centro-esquerda e a extrema esquerda se revezando nos governos da maior parte do mundo Ocidental (vide artigo Bin Laden e as eleições presidenciais brasileiras desta revista, edição de janeiro/2002).

Além dessa reação, a desastrada ação do MST quanto à invasão de propriedades, especialmente a de uma fazenda da família do presidente da República, suscitou desconfianças sobre a figura desse candidato, bem como de alguns personagens oficiais.

Um nome conservador?

Outros nomes com chances, levantados por políticos e pela imprensa, incluindo desde um consagrado empresário de TV até ministros e governadores que renunciaram a seus cargos para poderem se candidatar, vão sendo lembrados. Caso apareça uma figura conservadora, com atrativo para esse eleitorado frustrado, pode ser até provável a sua eleição. Quando este artigo sair a lume, talvez essa hipótese já esteja claramente lançada ou descartada. É possível ainda que ela permaneça na mente dos dirigentes de nossos partidos políticos.

Nomes populistas

Dois governadores ou ex-governadores de esquerda são hoje candidatos quase oficiais. Mas dentro de 30 dias, talvez não mais o sejam. As pesquisas não os têm favorecido.

Um candidato de protesto

Uma parcela inconformada do eleitorado, que há várias eleições vem anulando seu voto, votando em branco ou em candidatos de protesto, terá mais uma vez seu direito de eleitor reduzido a esse protesto. Mas é um direito que lhes assiste, e que não lhes pode ser negado.

***

É difícil analisar um quadro tão confuso seis meses antes de uma eleição. Mas, numa noite de insônia, quando tais pensamentos afluem à nossa mente e contribuem para a insônia, a ânsia de os colocar no papel resultou em que estas linhas fossem redigidas. Mas o panorama político possivelmente ainda vai se alterar. Talvez, no momento em que o presente artigo for publicado, o contexto da campanha eleitoral já seja outro.

Artigo oferecido pela Revista Catolicismo.

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