Será mau tudo aquilo que é moderno?

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Se por moderno se entende hodierno, isto é, nascido hoje, ou vivo em nossos dias, não podemos dizer que tudo quanto é moderno é mau. Neste sentido, é moderna a Santa Igreja, que tem vinte séculos de existência, ou a monarquia inglesa com seus ritos medievais.

ACC_1957_080_1Então, tudo que é moderno é mau? É a pergunta que talvez formule algum leitor desta seção, ao qual falte elevação e força de espírito para viver em habitual oposição às opiniões e costumes de nossos contemporâneos. Se respondermos pela afirmativa, teremos caído em pleno absurdo, e esse leitor de alma pequena se sentirá interiormente desobrigado — e com que alivio! — de nos acompanhar. Se respondermos pela negativa, poderá ele pelo menos dizer que em face do mundo de hoje não somos intolerantes, que o jornal de sua preferência não tem esse negro defeito da intolerância, em relação ao qual é tão intolerante o espírito deste século que se gaba, aliás, de tolerar todas as formas de erro e de vício.

ACC_1957_080_21Se por moderno se entende hodierno, isto é, nascido hoje, ou vivo em nossos dias, não podemos dizer que tudo quanto é moderno é mau. Neste sentido, é moderna a Santa Igreja, que tem vinte séculos de existência, ou a monarquia inglesa com seus ritos medievais.

Como poderíamos lançar pedras sobre tudo, absolutamente tudo quanto é de origem recente, sem ao mesmo tempo nos suicidarmos? Pois nosso jornal nasceu ontem, e é de hoje a animosa e sempre mais extensa legião de leitores que o aplaude e difunde em todo o país.

Mas se por “moderno” se entende aquilo que traz a marca do espírito igualitário, sensual e naturalista, então realmente tudo quanto é moderno é mau. E poderia não ser?

ACC_1957_080_3De que nem tudo quanto é hodierno nos parece mau, temos, em matéria de arte, um exemplo nestas figuras da “Orchestre doré”, do conhecidíssimo e atualíssimo pintor Raoul Dufy.

Sem dúvida, nada copia nelas o gosto ou a técnica de outros tempos. Se há o que não se pode dizer delas, é que são anacrônicas. Entretanto, publicamo-las com prazer. São figuras que exprimem, com verve e graça, atitudes e estados de espírito de uma realidade palpitante. O esforço fogoso do tocador de tímpanos,o flautista aplicado, o trompetista que vai desempenhando um tanto distraído e displicente seu papel, o tocador de harpa, profundamente pensativo, o pianista às voltas com uma execução dificílima simbolizada pela imensidade do piano, tudo vive, tudo se move, tudo vibra, e sobretudo paira a luz do sorriso arguto e divertido de Dufy.

ACC_1957_080_4-241x300A graça, a vida, a leveza da obra não lhe vêm do fato de ser executada em nossos dias. Elas provêm das qualidades do artista, de sua noção exata do que seja a arte.

E, como transição para o comentário seguinte, destaquemos esta frase de Dufy: “A originalidade é uma monstruosidade”[1]. Frase exageradamente genérica, é claro, mas que aplicada à má originalidade é plenamente verdadeira.

Não aplaudimos tudo que Dufy pintou. Aplaudimos seu talento, e reconhecemos com gosto que, evitando esta originalidade falsa teve ele a ventura de não chegar ao monstruoso. Esse monstruoso que tem em nossos dias tantos adoradores.

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ACC_1957_080_71Também a monstruosidade desta “Figura” de Picasso não lhe vem do simples fato de ser hodierna. Pois se assim fosse todo o mundo sentiria ou pintaria desta maneira. Esta monstruosidade vem, isto sim de um conjunto de concepções, tendências e sentimentos que se vão tornando cada vez mais dominadores em nossos dias. Por exemplo, a procura do original, e precisamente o original monstruoso.

Por que comentar esta aberração? E se é isto que é ser moderno, como o pode ser um ente equilibrado?

Em recente carta à redação da revista “Time”, publicada no seu nº de 17 de junho p.p., um leitor, Sr. Gerald H. Whippie, cita as seguintes palavras de Picasso: “Sou apenas um entertainer ( expressão inglesa intraduzível, que designa os que têm por profissão distrair o público ). Sou célebre. Sou rico. Mas quando me acho frente a mim mesmo não tenho coragem de me considerar um artista no grande e antigo sentido da palavra”.

Não tivemos o cuidado de verificar a exatidão do texto. Para que, se é evidente que Picasso, a sós consigo, não pode pensar de outro modo?


[1] “Raoul Dufy” – ed. “L’Amour de l’Art”, p. 48

Publicado originalmente em “Catolicismo” Nº 80 – Agosto de 1957, na seção “Ambiente, Costumes, Civilizações”

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